Declaração reacende debate sobre o desprezo histórico das elites pelo trabalho e pelos direitos trabalhistas no Brasil
Por Jorge Galdino – Presidente do Sindicato dos
Jornalistas
O ex-senador e empresário do setor de comunicações na Paraíba, Roberto Cavalcanti, afirmou nesta quinta-feira (30), véspera do feriado de 1º de Maio (Dia do Trabalhador e da Trabalhadora), que a data deveria ser chamada de “dia da vagabundagem”. A declaração, feita em estúdio de uma de suas emissoras, não é um “deslize” isolado: ela ecoa um imaginário antigo, no qual quem vive do próprio trabalho é visto como suspeito, preguiçoso ou descartável — enquanto a exploração vira virtude socialmente aceita.
No Brasil, esse tipo de estigma acompanha a formação do país. Povos originários, então rotulados pejorativamente como “índios”, foram frequentemente descritos por colonizadores como “preguiçosos” por resistirem ao trabalho compulsório imposto pela colonização. Já a população negra escravizada foi submetida a um sistema de violência e desumanização que, além de se apropriar de sua força de trabalho, produziu também a narrativa de que pessoas escravizadas seriam “vadias” quando fugiam, se rebelavam ou simplesmente reivindicavam humanidade.
É justamente por isso que o 1º de Maio existe: para lembrar
que direitos não foram doados, mas conquistados. As conquistas trabalhistas —
do descanso semanal remunerado às férias, da carteira assinada a regras de
proteção social — nasceram de pressão organizada em sindicatos, associações e
movimentos sociais, em diferentes épocas e com diferentes estratégias.
Na Era Vargas, o Estado passou a centralizar parte dessa agenda, e o 1º de Maio foi usado como data simbólica para anúncios e reforço de políticas trabalhistas, em um processo que combinou avanços legais e controle político sobre a organização sindical. Diante desse pano de fundo, chamar o Dia do Trabalhador de “vagabundagem” é mais do que um ataque retórico: é uma tentativa de inverter a história, como se direitos fossem caprichos e não resposta a séculos de exploração.
Há, ainda, um componente institucional que não pode ser
ignorado. Ao falar a partir de uma emissora que opera por concessão pública,
Roberto Cavalcanti usa um espaço que, em tese, deve servir ao interesse
coletivo, para difundir uma visão depreciativa sobre trabalhadores. Soma-se a
isso o histórico de atuação política: em vez de promover debate qualificado
sobre emprego, renda e direitos, o discurso recorre a estereótipos e desprezo.
A menção aos chamados “imprensados” — feriados colados a fins de semana — expõe
também a contradição de um país em que parte das elites demoniza o descanso
alheio, mas naturaliza privilégios e rotinas de poder.
Roberto Cavalcanti usa uma emissora, adquirida através de
concessão pública, e usou seu mandato político, concedido através do voto popular, para difundir seus pensamentos escravocratas e tentar manipular o Senado
Federal até para trazer os feriados para as sextas-feiras e segundas-feiras,
para acabar com o que chamou de “imprensados”, talvez influenciado pela própria
classe política que só “trabalha” das terças às quintas-feiras na Capital
Federal.
Esse tipo de empresário/político/intelectual ainda é
exaltado como “provedor de empregos”, ressaltado pela influência política e
ainda é imortalizado na Academia Paraibana de Letras (APL). Quando morrem,
recebem homenagens com nomes em avenidas, prédios públicos, rodovias e são destacados
na história como grandes vultos, mas na verdade são exploradores do trabalho
alheio, manipuladores da política e beneficiários de incentivos promovidos pelo
erário, vivem uma vida de luxo, ostentação e dominação e ainda repassam suas
fortunas e “legados” aos seus descendentes.
Neste dia do Trabalho, nossas homenagens a quem realmente produz e conduz nosso país ao progresso, e nosso repúdio a essa classe dominante que explora o trabalho alheio, vive como soberanos e ainda nos fazem sentir culpados através da falácia da meritocracia forjada pelo sistema capitalista.
Da redação do Sindjor-PB.


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