Inise Machado e Jamarri Nogueira foram os entrevistados do programa que trouxe uma conversa direta e sem filtros sobre o estado atual do jornalismo na Paraíba
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Por Jorge Galdino
O Jornalismo Paraibano vive entre precarização, renovação nas redações e ameaças do avanço da inteligência artificial. Estes foram alguns dos pontos debatidos no episódio desta terça-feira (28) do Observatório Debate que trouxe uma conversa direta e sem filtros sobre o estado atual do jornalismo na Paraíba.
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| Jornalista Rúbens Nóbrega |
Conduzido por Rubens Nóbrega, o programa reuniu os jornalistas Iníse Machado e Jamarri Nogueira para discutir salários, condições de trabalho, formação universitária, precarização das redações e o impacto crescente da inteligência artificial, compondo um retrato duro e urgente da profissão no estado.
Ao abrir o debate, Rubens lembrou que o Observatório é uma iniciativa voluntária, mantida por jornalistas e professores que insistem em discutir a prática profissional mesmo diante de resistências e “caras feias”. A partir daí, o tema central emergiu: a desigualdade histórica entre o crescimento das empresas de comunicação e a estagnação dos salários dos jornalistas.
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| Equipe do Podcast e convidados entrevistados |
Iníse Machado, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Paraíba (Sindjor-PB) e vice-presidente da Fenaj no Nordeste, explicou que a categoria passou 16 anos sem negociação salarial com o Governo do Estado. A retomada recente resultou em diversos reajustes salariais e três Convenções Coletivas de Trabalho com iniciativa privada, enquanto no setor público a reposição chegou a 107% — uma vitória comemorada, mas ainda distante do que a categoria considera digno.
Jamarri reforçou o diagnóstico ao
comparar o jornalista paraibano ao personagem Július, de Todo Mundo Odeia
o Chris, que acumulava empregos para sobreviver. Segundo ele, é comum
que profissionais mantenham dois ou três vínculos para alcançar uma renda média
de R$ 5 mil, valor insuficiente diante da carga de trabalho e da multiplicidade
de funções exigidas nas redações.
Para o jornalista, a precarização
se tornou regra e o mercado caminha para piorar, não melhorar. Ele lembrou que
previsões feitas nos anos 1990 sobre redações enxutas e repórteres multitarefas
— antes vistas como futuristas — se tornaram realidade muito mais rápido do que
se imaginava.
O debate também abordou a mudança
no perfil das redações. Jamarri observou que, ao contrário das décadas
passadas, quando jovens aprendiam com veteranos, hoje as equipes são formadas
majoritariamente por profissionais muito jovens, sem repertório, sem fontes
consolidadas e mais vulneráveis ao controle editorial. Para ele, redações
compostas apenas por iniciantes são “mais fáceis de dominar”, o que
compromete a qualidade do conteúdo e enfraquece a resistência interna.
Iníse concordou que falta
preparo, mas ressaltou que muitos recém-formados chegam ao sindicato sem saber
sequer o papel da entidade, reflexo de uma formação universitária que, segundo
ela, deveria equilibrar teoria, ética e prática.
A formação acadêmica foi outro ponto de divergência. Jamarri defendeu que o curso de jornalismo deve formar pensadores, não técnicos, e que a prática se aprende na redação, com orientação de profissionais experientes. Iníse, por sua vez, acredita que o curso deve sim oferecer bases práticas, mas que cada estudante precisa buscar experiência desde cedo. Ambos concordam que a formação universitária, sozinha, não prepara o jornalista para a realidade dura das redações.
O debate avançou para a
precarização estrutural da profissão. Dados apresentados por Iníse mostram que,
em 2013, o Brasil tinha 60 mil jornalistas empregados; em 2025, restam apenas
4.700. A pejotização se tornou regra, com 46 mil profissionais atuando como
microempresários.
A migração para plataformas
digitais, o fechamento de jornais impressos e a concentração da publicidade em
redes sociais contribuíram para a queda vertiginosa das vagas formais. Para a
diretora do Sindjor-PB, a perda de qualidade do jornalismo também alimenta esse
ciclo, já que empresas preferem contratar “pessoas jurídicas” baratas e sem
vínculo empregatício.
A inteligência artificial surgiu
como o ponto mais inquietante da discussão. Iníse citou exemplos de repórteres
virtuais já em atividade no Brasil e no exterior, enquanto Jamarri lembrou que
80% das grandes empresas internacionais utilizam Inteligência Artificial (IA)
para gerar conteúdo. Para ele, a tendência é de redução ainda maior das
oportunidades para jornalistas humanos, caso não haja regulamentação clara
sobre o uso da tecnologia nas redações.
O jornalista mencionou ainda
casos de apresentadores virtuais e sistemas que simulam vozes humanas para
narrar reportagens, indicando que o impacto da IA já é concreto e profundo. “Vejo
menos vagas de emprego no horizonte”, afirmou.
Apesar do cenário adverso,
Jamarri defendeu a necessidade de ressignificação profissional. Ele relembrou
episódios pessoais em que precisou aprender novas ferramentas em poucos dias
para não perder oportunidades, destacando que a reinvenção é uma exigência da
profissão e da sobrevivência. Iníse reforçou que a luta sindical continua,
apesar das dificuldades, e que a categoria precisa se unir para fortalecer o
movimento e garantir direitos básicos.
O debate encerrou com reflexões
sobre o futuro da profissão. Entre salários baixos, precarização crescente,
formação desconectada da prática, redações enfraquecidas e o avanço acelerado
da inteligência artificial, o jornalismo paraibano enfrenta um momento
decisivo.
A mensagem final dos participantes é clara: sem reinvenção, organização coletiva e defesa ativa da profissão, o jornalismo corre o risco de perder ainda mais espaço em um cenário dominado por influenciadores, algoritmos e automação.
Assista ao episódio completo no link abaixo.
Da redação do Sindjor-PB.




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